Sobre a institucionalização da revolução
Cena I – Ontem eu participei de uma reunião do sindicato. Tratava-se do debate entre as chapas que iriam disputar o próximo período de direção. Decidi ir para conhecer as propostas e os sujeitos candidatos. Logo de cara me senti deslocado em relação ao diálogo com os ditos camaradas, pois havia toda uma metodologia de participação, comum a eles, mas não óbvia para quem estava chegando. Teríamos de colocar nossas perguntas em envelopes antes mesmo de ouvir as falas dos sujeitos e os conhecer. Não havia tempo para reflexão. E isso parecia saciar o desejo democrático dos organizadores. A experiência me fez lembrar de uma observação que fiz a muito tempo. A institucionalização das ações revolucionárias não garante sua continuidade. As tornam puro plástico, discurso manipulável como um rótulo que permite qualquer conteúdo.
Cena II – Reunião do Conselho de um grupo de capoeira que está se organizando como instituição. Pela primeira vez, através de edital, um maior número de membros obteve aprovação em editais com garantia de recursos oriundos do governo. Ao tratar da distribuição dos recursos com base no regimento decidido coletivamente, uma das pessoas se manifestou indignada sobre o combinado, como se fosse algo imposto de uma hora pra outra. Uma semente estava brotando. Que árvore viria a se tornar?
Sobre essas duas cenas, eu havia observado situações semelhantes ao ler um livro sobre a vida de Francisco de Assis. O caboclo, tendo uma postura de vida coerente e uma proposta ética para o mundo, não deixou diretrizes formais/escritas para a continuidade de suas ações. Talvez ele nunca tenha desejado isso, mas apenas viveu sua própria experiência. Resultado, sujeitos “esclarecidos” tomaram à sua frente e criaram tradições em nome do idealista. O Chico foi institucionalizado.
Depois de algum tempo, li sobre Buda. A mesma coisa ocorreu. Com Cristo, idem. O exemplo dos sujeitos não bastava. Era preciso transformar palavras em produtos copiáveis e vendáveis. Isso seria mais fácil do que promover transformações a partir do próprio exemplo. Evidentemente, tratava-se de uma farsa. Mas, convencia milhares de sujeitos, bem intencionados, que entendiam que vestir uma camisa, ou qualquer que fosse o símbolo, garantia o caminho para o paraíso. Nada mais era do que o alimento para a individualidade egoísta de cada um.
O capitalismo se sustenta na crença de uma individualidade eterna, que permanece mesmo após a morte. Isso, claro, é alimentado pelo monoteísmo ocidental. Essa crença torna os sujeitos arrogantes, em relação às outras vidas. Tanto com os seus pares e pior com os diferentes (outros animais e plantas).
Então, considerando que a institucionalização é uma
armadilha para ações revolucionárias, devemos cair nela tendo ciência de para
onde ela vai nos conduzir? Nosso esforço em criar um instituto cultural, e
ficar a serviço do Estado, não iria cair na mesma armadilha? É sensato
continuar gastando energias em algo que vai se tornar o oposto do que hoje
defendemos? Não é melhor dar mais autonomia aos que se acham prontos e permitir
que caminhem com suas próprias pernas? Talvez seja o tempo de parar de ficar
chamando o povo pra comer e deixar que cada um aprenda com suas quedas. Os exemplos são dados, mas as escolham são livres.
Bragança, 06/05/25

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